O piano de Mirian Suzuki
Em terras de violadas e chamamés, músicas sertanejas e fronteiriças, a menina na loja de brinquedos se encanta por um piano. O encantamento infantil levou a douradense Mirian Suzuki ao Bacharelado em Música, pela Universidade Estadual Paulista, e depois ao Mestrado em Música pela University of Arkansas. Desde então, vem atuando em performance e pedagogia musical. Recebeu o prêmio Concerto/Aria Competition onde foi solista com a North Arkansas Symphony Orchestra, tocou em diversas salas na Colômbia, Brasil e Estados Unidos. É fundadora e coordenadora do Festival Internacional de Música Prelúdios, Encontro de Piano & Música de Câmara junto à Fundação Nelito Câmara. Desde 2005, também desenvolve projetos na área de música pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul e integra a Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul. É a musicista de concerto mais atuante em Dourados e suas apresentações levam um grande número de pessoas a apreciarem a música clássica.
Desde quando a música te acompanha em sua jornada?
“Comecei meus estudos aos 7 anos de idade, o interessante é que tudo começou porque eu gostei de um piano de brinquedo.”
No sertão sul-mato-grossense, como a música de concerto te encantou?
“Desde o início, eu aprendi a ler partitura e, para uma criança adquirir um pouco de fluência na leitura musical, leva um tempo para desenvolver um repertório. Depois de dois anos ou mais estudando música, eu me lembro de ficar absolutamente encantada com J. S. Bach, as primeiras músicas polifônicas que conheci.”
A música transforma?
“Sim! Eu seria muito diferente se não tivesse tido este universo da música no meu desenvolvimento. Imagine uma criança estudando sons, ritmos...criando habilidades e enfrentando público. Era um desafio, mas trazia muita experiência e era muito gratificante. Eu morava em um lugar limitado, mas a música me levava a outros lugares, né... isso é transformador.”
Quando você começou a multiplicar músicos em Dourados?
“Eu terminei o Mestrado em Música e voltei para ficar com a minha família. Nesta fase, pensei em alguns projetos que tinham como base a Educação Musical, como o Lúmen e a Orquestra de Câmara UEMS. Neste período, comecei a lecionar no Curso de Música da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).”
A fronteira entrou em sua música?
“Tenho algumas experiências com a música de fronteira para coral. Participei na produção musical de uma peça teatral sobre a guerra do Paraguai e realizamos algumas obras com a Orquestra de Câmara UEMS, juntamente com alguns intercâmbios do grupo Sonidos de la Tierra (Paraguai).”
Como é fazer música em terra guarani?
“É uma experiência linda. Na produção dos festivais de música que coordenei, sempre levamos música tanto para as salas de concerto quanto para a aldeia. Na aldeia, durante muitos anos, apresentamos uma variedade enorme de repertório e sempre fomos recepcionados com sorrisos e com saudações musicais. No entanto, de todas as apresentações, o que mais emocionou as crianças foi uma apresentação do Coral Luther King, do Maestro Martinho Lutero Galati (in memorian) cantando Bach e uma música da África. Os próprios músicos se emocionaram com a reação das crianças que correram para abraçá-los, mostrando que a música não tem barreiras.”
Há ecos ancestrais em seu piano?
“Não saberia dizer, porque não tive muito contato com minha família no Japão. Mas pessoalmente, não conheci quem tocasse algum instrumento.”
Há espaço para música de concerto na terra vermelha?
“Sim, é possível comprovar isso quando recentemente lotamos mais de 800 lugares em Campo Grande. Nos festivais em Dourados, os concertos sempre atraíam grandes plateias mostrando que a música de concerto tem um público cativo e entusiasta na região. No entanto, para que a música de concerto possa se desenvolver de forma contínua, é fundamental contar com o apoio das instituições e do poder público. Esse apoio é necessário para garantir a existência de espaços adequados para apresentações e ensaios, bem como a disponibilidade de instrumentos de qualidade. Além disso, é crucial investir na educação musical, oferecendo uma formação de qualidade nas escolas. Eu adoraria que todas as crianças tivessem a oportunidade de estudar música.”
Como os festivais chegaram?
“Quando o projeto da Orquestra de Câmara se iniciou, muitas pessoas não tinham a oportunidade de ouvir uma orquestra, um grupo de câmara ou concertos em geral. Foi nesse contexto que surgiu o Festival de Música ‘Prelúdios’. Este festival foi pensado e desenvolvido com o objetivo de preencher essa lacuna cultural. O ‘Prelúdios’ foi concebido para oferecer uma ampla gama de experiências musicais, abrangendo diversos estilos e formatos. A ideia era não apenas apresentar a música de concerto tradicional, mas também explorar diálogos com outros gêneros musicais, criando uma programação rica e diversificada. Além disso, o festival buscou estabelecer parcerias com músicos renomados, tanto nacionais quanto internacionais. Esses artistas convidados trouxeram consigo uma vasta experiência e conhecimento, contribuindo significativamente para a compreensão, inspiração e aprendizado para os músicos locais, promovendo um intercâmbio cultural e artístico valioso. O Festival de Música ‘Prelúdios’ rapidamente se tornou uma referência na região, atraindo um público cada vez maior e mais diversificado.”
Para onde sua música vai te levar?
“Com certeza para novos lugares... é maravilhoso!”
Ricardo Pieretti Câmara - Escritor e Cineasta